Primeiro Tempo
por franty { Tags: Futebol \ Apr21 } 
A primeira edição da revista de final de semana de março do jornal britânico The Guardian trouxe uma série de artigos a respeito de adultos que realizaram pela primeira vez coisas que normalmente são feitas mais cedo na vida: viajar de avião, fumar um baseado, usar salto alto eram algumas dessas coisas. Um sujeito chamado Oliver Burkerman foi assistir uma partida de futebol em um estádio pela primeira vez.
Abri a revista e fui direto para o artigo do cara. Me senti atraido pela leitura porque, por incrível que pareça, eu nunca tinha ido a um estádio ver um jogo de futebol.
Infelizmente, o Sr. Burkeman, que teve a sorte de assistir a uma partida do Liverpool, simplesmente odeia futebol, e saiu odiando mais ainda o esporte depois do jogo. Desanimado, coloquei a revista de lado e fui me limpar.
Não ter ido a um jogo sempre foi algo um pouco embaraçoso para mim. É como quando aquele garoto de 15 anos é o último virgem da sua turma de amigos do colégio (na verdade, a maioria deles é virgem, mas todos fingem que não são). Ele tenta ao máximo evitar o assunto, mas garotos adolescentes tem poucos assuntos além de sexo. Talvez futebol seja um deles.
Acho que por isso eu não tinha muito o que dizer quando tinha 15 anos.
Eeeeenfim. Isso tinha que acabar. Com 31 anos eu tinha que fazer algo. Ou o Bueno tinha que fazer algo. Fomos, junto com o amigo Ricardo, ver o Inter X Caxias no Gigante da Beira Rio.
Vamos deixar algo bem claro. Eu gosto de futebol. Gosto um bocado. Sou torcedor do Internacional desde que me conheço por gente (por influência de meu avô, que também me ensinou a não ter modos à mesa). Simplesmente, passei a maior parte da minha vida interessado em outras coisas: gurias, rock e videogame (não sei muito bem em que ordem). Até já joguei muito futebol no videogame. Isso porque na vida real… Bem, não vamos falar nas minhas habilidades futebolísticas, até porque elas simplesmente não existem (Também não sei tocar guitarra e sou péssimo com as mulheres, mas mato a pau no Guitar Hero e no The Sims).
Estacionamos a uma certa distância do estádio, na lateral do Estádio dos Eucaliptos (antiga casa do Inter, que vai a leilão em breve), afim de evitar flanelinhas e a tranqueira na volta pra casa. Ao longo da caminhada, mergulhamos em um verdadeiro mar de camisetas vermelhas, gente de todas as idades, classes, estilos. Lembrei do velho cliché do torcedor violento, coisa que nunca acreditei. Claro que existe uma turma afim de sair na porrada, mas a grande maioria dos torcedores de uma partida de futebol são, como sempre imaginei, famílias e amigos querendo se divertir.
Entramos por um portão que dava para um enorme bar e os banheiros. Um corredor dava para um muro e saídas para ambos os lados, mas não permitia que eu visse as arquibancadas. Foi quando saímos pela direita (faltavam uns 20 minutos para o início da partida) que eu pude ver o estádio praticamente cheio, e aquele som abafado lá de fora se tornou uma enorme massa cantando unida. Senti as pernas tremerem enquanto fomos arrumar um lugar para sentar, ao lado da grade que separa a Popular das cadeiras. Como era a minha primeira vez, meus amigos acharam melhor que eu sentasse onde tivesse uma visão privilegiada tanto do campo quanto do público.
Pouco depois chegaram na popular os instrumentos, e dali se originaram as canções que eram entoadas pelo estádio inteiro. Isso não para um segundo, nem mesmo no intervalo, nem mesmo depois que o jogo acaba. Muito menos quando o time leva um gol.
O campo estava cheio, crianças, policiais, funcionários, repórteres, gente pra caramba até que os times, primeiro o visitante, debaixo de vaias, depois o da casa, sob uma avalanche de aplausos, batucadas, papel picado e rojões. Há essa altura, o estava praticamente cheio, com aproximadamente 35 mil pessoas.
Foi quando o juiz apitou a partida que eu percebi. Assisitir uma partida de futebol pela televisão é simplesmente querer saber o que está acontecendo. É tão útil quanto ouví-la pelo rádio ou acompanhar lance por lance pela internet. O jogo no estádio é muito, mas muito mais rápido. Qualquer distração e você perde um lance importante. Lá, também, sem a ajuda dos narradores e comentaristas, você tem que saber quem é quem na partida (pelo número da camiseta, porque a minha visão não me permite distinguir rostos a tal distância) e prestar atenção em impedimentos, faltas, cartões. Dessa maneira o jogo é algo muito mais envolvente.
Aos 19min50seg, Magrão deu um toque de calcanhar para Guiñazu. O argentino foi à linha de fundo e cruzou para Alex na área chutar de primeira, de pé esquerdo, e o mundo todo virou único grito de gol.
O primeiro gol é inesquecível. Ainda teria mais um aos 27 minutos, mas aquele primeiro momento foi decisivo. 31 anos torcendo para um time sem saber direito o porquê. Agora eu sabia. Na hora, lembrei da final do mundial de 2006 e entendi finalmente porque fiquei tão emocionado naquele dia.
No intervalo a cerveja fez seu efeito e tive que ir ao banheiro. Poderia ter ido logo no início do segundo tempo para não pegar fila, mas não queria perder nenhum lance, e achei que isso faria parte da experiência. Na minha frente na fila, um menino de uns 3 anos gritava "Inter, Inteeeeer" e beijava o símbolo do time na sua camiseta. O pai, orgulhoso, dizia a um conhecido: "É a primeira vez dele em um estádio". Eu e o menininho, compartilhando o mesmo sentimento.
No segundo tempo o Inter não marcou gols. Levou um, o que, confesso, era algo que eu também queria vivenciar. Queria saber como era levar um gol dentro do estádio. A surpresa foi imediata, quando a torcida aumentou o canto, os aplausos e empurrou o time sempre para frente. Não houve silêncio, não ouve "ooooooooohs" nem desespero (até porque o jogo ainda estava sendo ganho), mas incentivo.
Quando um time diz que ganhar em casa é mais fácil, não se está brincando. O adversário mal consegue olhar para cima. A torcida é tão importante para a partida, e isso não é algo místico: tente cobrar uma falta debaixo de 35 mil vaias. Seja um goleiro do time da casa e escute 35 mil vozes de incentivo, mesmo quando você falha.
Já estive em estádios para ver shows de rock. Vi Nirvana e tempos depois os Rolling Stones no estádio do Morumbi, muito mais cheios nesses dias do que em dias de jogo. Mas a diferença é que um show a atenção é total no palco e a platéia não participa, numa partida, o show é nas arquibancadas, na torcida que nunca, nunca desiste e comemora, numa só voz, não a vitória nem a derrota, mas a paixão por um time de futebol.
bueno
Hehehe
Antes tarde do que nunca!
sofia
que lindo véio! nunca vou me esquecer dessas sensações das primeiras impressões no beira rio!